sábado, 20 de fevereiro de 2010

... Fragmentos de Um Discurso Amoroso... (Roland Barthes).


Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonada me designa a especialidade do meu desejo. Esta escolha tão rigorosa, estabelece, por assim dizer, a diferença entre a transferencia analítica e a amorosa; a primeira é universal e a segunda específica. É difícil encontrar a imagem que entre mil, convém ao meu desejo. Eis o grande enigma do qual nunca terá solução: Porque desejo esse? Porque o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência, uma alma?) ou apenas uma parte desse todo? E, nesse caso, o que, nesse corpo e nessa alma amada, tem a tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente? O corte de uma unha, a sua mão, a sua barba por fazer, uma mecha do cabelo? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável quer dizer: este é o meu desejo, tanto que é único. É isso! Exatamente isso (que amo). No entanto, quanto mais experimento a especialidade do meu desejo, menos posso nomeá-lo. A palavra adorável (a boa tradução de adorável), seria ipse latino: É ele, ele mesmo em pessoa.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010


Do Desejo
de Hilda Hilst



E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

(Do Desejo - 1992)



* * *



Colada à tua boca a minha desordem.

O meu vasto querer.

O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas descomedida

Árdua

Construtor de ilusões examino-te sôfrega

Como se fosses morrer colado à minha boca.

Como se fosse nascer

E tu fosses o dia magnânimo

Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

( Do Desejo - 1992)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010


... Trocar a precariedade da existência humana e da vida... A fugacidade dos bens materiais? A fugacidade do tempo? ... A falta de sentido da vida, a solidão que estou condenada, a vida como sonho e pesadelo (TODOS OS DIAS)... A distância... A perda... A falta...

O que é um ser dissimulado? É agir de modo a não ser precebido pelos predadores.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Ode ao Haiti


O Haiti (em francês Haïti; no crioulo haitiano Ayiti) é um país das Caraíbas possuindo uma de suas duas fronteiras terrestres com a República Dominicana, a leste; Além desta fronteira, os territórios mais próximos são as Bahamas e Cuba a noroeste. A capital do Haiti é Porto Príncipe (Port-au-Prince). Os primeiros humanos nesta ilha chegaram há mais de 7000 anos, mas pela visão do colonizador, foi em 5 de dezembro de 1492, que tudo começou civilizadamente (?) porque Cristóvão Colombo chegou ao que ele chamou de uma grande ilha, à qual deu o nome de Hispaniola. Mais tarde passou a ser chamada de São Domingos pelos franceses – e o início de grandes acordos comerciais que traziam o hoje Haiti como moeda. Dividida então, entre dois países, a República Dominicana e o Haiti, é a segunda maior das Grandes Antilhas, com a superfície de 76.192 km² e cerca de 9 milhões de habitantes, tem 641 quilômetros de extensão entre seus pontos extremos, a ilha tem formato semelhante à cabeça de um caiman (ou caimão) que é um pequeno crocodilo abundante na região, cuja "boca" aberta parece pronta a devorar a pequena ilha de La Gonâve. O litoral norte abre-se para o oceano Atlântico, e o sul para o mar do Caribe (ou das Antilhas).
Já no fim do século XVI, quase toda a população nativa havia desaparecido, escravizada ou morta pelos conquistadores. A parte ocidental da ilha, onde hoje fica o Haiti, foi cedida à França pela Espanha em 1697. No século XVIII, a região foi a mais próspera colônia francesa na América, graças à exportação de açúcar, cacau e café. Após uma revolta de escravos, a servidão foi abolida em 1794. Nesse mesmo ano, a França passou a dominar toda a ilha. Em 1801, o ex-escravo Toussaint Louverture tornou-se governador-geral, mas, logo depois, foi deposto e morto pelos franceses. O líder Jacques Dessalines organizou o exército e derrotou os franceses em 1803. No ano seguinte, foi declarada a independência e Dessalines proclamou-se Imperador. Após período de instabilidade, o país é dividido em dois e a parte oriental - atual República Dominicana - reocupada pela Espanha. Em 1822, o presidente Jean-Pierre Boyer reunificou o país e conquistou toda a ilha. Em 1844, porém, nova revolta derrubou Boyer e a República Dominicana conquistou a independência.
Da segunda metade do século XIX ao começo do século XX, 20 governantes sucederam-se no poder. Desses, 16 foram depostos ou assassinados. Tropas dos Estados Unidos da América ocuparam o Haiti entre 1915 e 1934 – períodos entre a 1ª. e a 2ª. Guerra Mundial, sob o pretexto de “proteger os interesses norte-americanos” no país. Em 1946, foi eleito um presidente negro, Dusmarsais Estimé. Após a derrubada de mais duas administrações governamentais, o médico François Duvalier foi eleito presidente em 1957 – não podemos esquecer que a ilha do Haiti é território estratégico para as chamadas disputas entre Capitalistas e Comunistas a época da Guerra Fria. François Duvalier, conhecido como Papa Doc, instaurou feroz ditadura, baseada no terror policial dos tontons macoutes (bichos-papões) - sua guarda pessoal -, e na exploração do vodu. Presidente vitalício, a partir de 1964, Duvalier exterminou a oposição e perseguiu a Igreja Católica. Papa Doc morreu em 1971(CRUZES, EU NASCI NESSE ANO!!!)... E foi substituído por seu filho, Jean-Claude Duvalier - o Baby Doc (e o estrago continuou).
Em 1986, Baby Doc decretou estado de sítio. Os protestos populares se intensificaram e ele fugiu com a família para a França, deixando em seu lugar o General Henri Namphy. Eleições foram convocadas e Leslie Manigat foi eleito, em pleito caracterizado por grande abstenção – por absoluto medo. Manigat governou de fevereiro a junho de 1988, quando foi deposto por Namphy. Três meses depois, outro golpe pôs no poder o chefe da guarda presidencial, General Prosper Avril.
Depois de mais um período de grande conturbação política, foram realizadas eleições presidenciais livres em dezembro de 1990 a qual foi vencida pelo padre esquerdista Jean-Bertrand Aristide, e eu me lembro como se fosse ainda hoje, que minha mãe mulher extremamente antenada, professora e advogada, discutiu veementemente esse fato, dizendo “Infelizmente a geração Doc deixa rastos de desgraça que jamais serão revertidos, os dominadores americanos (do norte), pensam que apoiando um padre resolverão o problema da miséria instalada nesse país, reforçam e confundem, portanto, religião com política e isso é lastimável” – Sábia Dona Vera Lúcia, ela faleceu em abril de 91 e não viu que em setembro do mesmo do ano, Aristide foi deposto num golpe de Estado liderado pelo General Raul Cedras e se exilou nos EUA. A Organização dos Estados Americanos (OEA), a Organização das Nações Unidas (ONU) e os EUA impuseram sanções econômicas fortíssimas ao país para forçar os militares a permitirem a volta de Aristide ao poder. Já em julho de 1993, Cedras e Aristide assinaram um pacto em Nova York, acordando o retorno do governo constitucional e a reforma das Forças Armadas. Em outubro de 1993, porém, grupos paramilitares impediram o desembarque de soldados norte-americanos, integrantes de uma Força de Paz da ONU. O elevado número de refugiados haitianos que tentavam ingressar nos EUA fez aumentar a pressão americana pela volta de Aristide. Em maio de 1994, o Conselho de Segurança da ONU decretou bloqueio total ao país. A junta militar empossou um civil, Émile Jonassaint, para exercer a presidência até as eleições marcadas para fevereiro de 1995. Os EUA denunciaram o ato como ilegal. Em julho, a ONU autorizou uma intervenção militar, liderada pelos EUA. Jonaissant decretou estado de sítio em 1º de agosto. Em setembro de 1994, uma força multinacional, liderada pelos EUA, entrou no Haiti para reempossar Aristide. Os chefes militares haitianos renunciaram a seus postos e foram anistiados. Jonaissant deixou a presidência em outubro e Aristide reassumiu o País com a economia destroçada pelas convulsões internas. No período de 1994-2000, apesar de avanços como a eleição democrática de dois presidentes, o Haiti viveu mergulhado em crises político-administrativas com reflexo cultural e devido à instabilidade, não puderam ser implementadas reformas políticas profundas. A eleição parlamentar e presidencial de 2000 foi marcada pela suspeita de manipulação por Aristide e seu partido. O diálogo entre oposição e governo ficou prejudicado. Em 2003, a oposição passou a clamar pela renúncia de Aristide. A Comunidade do Caribe, Canadá, União Européia, França, Organização dos Estados Americanos e Estados Unidos, apresentaram-se como mediadores. Entretanto, a oposição refutou as propostas de mediação, aprofundando a crise. Em fevereiro de 2004, eclodiram conflitos armados em Gonaives, espalhando-se por outras cidades nos dias subseqüentes. Gradualmente, os revoltosos assumiram o controle do norte do Haiti. Apesar dos esforços diplomáticos, a oposição armada ameaçou marchar sobre Porto Príncipe. Aristide foi retirado do país por militares norte-americanos em 29 de fevereiro, contra sua vontade, e conseguiu asilo na África do Sul. De acordo com as regras de sucessão constitucional, o presidente do Supremo Tribunal (Court suprême), Bonifácio Alexandre, assumiu a presidência interinamente e requisitou, de imediato, assistência das Nações Unidas para apoiar uma transição política pacífica e constitucional e manter a segurança interna. Nesse sentido, o Conselho de Segurança (CS) aprovou o envio da Força Multinacional Interina (MIF), liderada pelo Brasil, que prontamente iniciou seu desdobramento.
Considerando que a situação no Haiti ainda constitui ameaça para a paz internacional e a segurança na região, o Conselho de Segurança decidiu estabelecer a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH), que assumiu a autoridade exercida pela MIF em 1º de junho de 2004. Para o comando do componente militar da MINUSTAH (Force Commander) foi designado o General Augusto Heleno Ribeiro Pereira, do Exército Brasileiro. O efetivo autorizado para o contingente militar é de 6.700 homens, oriundos dos seguintes países contribuintes: Argentina, Benin, Bolívia, Brasil, Canadá, República do Chade, Chile, Croácia, França, Jordânia, Nepal, Paraguai, Peru, Portugal, Turquia e Uruguai.
Em 12 de janeiro de 2010, veio mais “um tiro de misericórdia” que somado a história do próprio país, cruelmente, a natureza mostrou-se também perigosa por meio de um terremoto de proporções catastróficas, com magnitude de 7.0 pontos na escala Richter, atingiu o país a aproximadamente 22 quilômetros da capital, Porto Príncipe. Em seguida, foram sentidos na área múltiplos tremores com magnitude em torno de 5.9 graus. O palácio presidencial, várias escolas, hospitais e outras tantas construções civis ficaram destruídas. Estima-se que 80% dessas construções de Porto Príncipe foram destruídas ou seriamente danificadas. O número de mortos não é conhecido com precisão, embora fontes não oficiais afirmem que podem chegar aos 200 mil, e o número de desabrigados pode chegar aos três milhões. Diversos países disponibilizaram recursos em dinheiro para amenizar o sofrimento do país mais pobre do continente americano. O presidente norte americano Barack Obama, afirmara logo após a tragédia geológica, que o povo haitiano não seria esquecido, obrigando a comunidade internacional a refletir sobre a responsabilidade dos países que exploraram e abandonaram o Haiti (inclusive seu próprio país???!!!). Segundo as Nações Unidas, o abalo sísmico foi o pior desastre já enfrentado pela Organização desde sua criação em 1945. O terreno do Haiti consiste principalmente de montanhas escarpadas com pequenas planícies costeiras e vales fluviais. O leste e a zona central é um grande planalto elevado.
O catolicismo romano é a religião de estado, professada pela maioria da população. Houve várias conversões ao protestantismo sendo agora essa a segunda mais popular religião do país. Muitos haitianos também praticam tradições vodu, sem ver nelas nenhum conflito com a sua fé cristã.
A padroeira do Haiti, na Igreja Católica, é Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

... Presente real de ano novo.


...Eu acredito nas formas de gostar que desafiam os rótulos das embalagens. Eu tenho um gostar que não tem rótulos. Pessoas podem até me dizer, tal qual o refrão da música Save a Prayer de Duran Duran (Some people call it a one night stand but week and can call it paradise)...portanto...Sofro porque pessoas querem me enquadrar em qualquer modelo de sociedade pré estabelecida, mas de verdade, sou absolutamente feliz porque vivo como eu quero e amo quem eu quero e como eu quero independente dos rótulos dessa sociedade medíocre que precisar ser big, master, hiper e ter sempre algo em seu nome ou com algum nome...A semiótica explica tudo!?...não sei, mas sei que Dostoievski me entenderia, ah, entenderia...E assim, desejo que você viva o novo ano que nasce agora como quem vive a felicidade momentânea do prazer absoluto de ser feliz independente do que o mundo acha, independente do que pessoas pensam... Seja você mesmo principalmente em sua forma de amar.Seja presente, independente de formas e formatos.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

... Carne, Suspiros e leite... Sem lactose (III)...


... I Want To Break Free: Eu quero me libertar - Ao som de Queen, quatro jovens atrizes, vestidas em espartilho branco e meias roxas em superposição com pés de outras meias desencontradas, cabelos emaranhados a bobs, maquiagem carregada, um pé calçado e outro não, se encontram em ambientes paralelos e conectados de um universo bem feminino; uma casa. Banheiro, quarto da criança, lavanderia, sala, cozinha... Tudo parecendo absolutamente normal, uma ambientação corriqueira aos olhos de todos os mortais. Entretanto, algumas coisas fazem a diferença dessa narração: As moças estão em meio à lama, sangue, leite, farinha e ovos. Elas se fazem presentes em ações que incomodam o público, afinal, o ambiente deveria estar limpo, cheiroso, arrumado e suas habitantes - que desempenham papeis tão femininos, também deveriam estar limpas e cuidadosamente perfeitas, o que não acontece. O som repetitivo da mesma música - I Want To Break Free - Eu quero me libertar, ecoa sem parar. Bifes crus são encharcados em um líquido vermelho, fazendo a carne crua ficar cada vez mais vermelha. Bifes são arremessados silenciosa e histericamente ao chão, presos nos cabelos, nas roupas, dentro das calcinhas, misturados a lama, batidos no chão, passados por um ferro em cima de uma banca de passar, que pinga sangue, presos no varal, misturados a leite, farinha, água suja, numa cozinha imunda, loucamente "limpa" por uma enceradeira muito antiga...É a carne dilacerada da mulher oprimida. Uma criança aparece. Ela é mostrada ao público que interage com ela... Uma criança Osso. Isso, uma criança osso, um fêmur bovino com joelho. A "mãe" orgulhosa mostra a criança para as pessoas que hipocritamente falam: "Que linda!!!", e ela pergunta: "É a cara do pai, não?" e quando se responde "nossa, é mesmo!!", ela pede a criança um sorrisinho que é conseguido quando a atriz puxa a cartilagem do joelho do osso, provocando na platéia um choque de sarcasmo, risos, sensação de desconforto, nojo, asco... Essa "criança" é sempre cuidadosamente lavada em uma banheira rosa absolutamente imunda, com lama dentro, envolta em panos imundos, carregada amorosamente por mãe sorridente e imunda. Essa criança, que é a cara do pai, tem cara de joelho, não se parece com ninguém. Ao fundo está outra mulher, que retira de dentro de um vaso sanitário, enormes pelotas de lama e passa na parede obsessivamente! Ela senta-se no vaso e remexe "o excremento"; passa pelo corpo, passa no chão, mistura com os bifes, passa na parede... Enquanto isso, mais uma mulher aparece: Ela limpa compulsivamente o chão. Limpa? Ela mistura o leite, com os ovos, a tinta vermelha, a própria carne crua, a lama... Um evento nojento que exala um odor visual insuportável de sujeira... Ela "limpa" tudo isso com uma enceradeira velha, ligada por uma extensão, "isolada" por durex, em fios que se fundem perigosamente a todos os líquidos espalhados pelo chão... Com um pé calçado e outro somente de meia e absurdamente molhado que descansa por sobre a enceradeira ligada ela contempla o "lar", pedindo silenciosamente para ser eletrocutada. Noutro braço, a "criança" sorri para a mãe... Ao mesmo tempo, outra mulher com um bolo nojento, busca na platéia "o homem ideal" que aprove seus dotes culinários...

... Carne, Suspiros e leite... Sem lactose (II)...


Projeto Tubo de Ensaio - Só Risos, UnB - Universidade de Brasília, dias 4 e 5 de julho de 2009. Sábado e Domingo, ICC Ala Sul. Várias performances que tratam de eventos variados por óticas engraçadas, cínicas e multivariadas... O que é uma Performance? A performance, art performance ou performance artística é uma modalidade de manifestação artística interdisciplinar /transdisciplinar que - assim como o happening - pode combinar artes visuais, teatro, música, poesia e ou vídeo. É característica da segunda metade do século XX e suas origens estão ligadas aos movimentos de vanguarda - dadaísmo, futurismo, Bauhaus, etc. - do início do século passado. Difere do happening por ser mais cuidadosamente elaborada e não envolver necessariamente a participação dos espectadores. Em geral, segue um "roteiro" previamente definido, podendo ser reproduzida em outros momentos ou locais. É realizada para uma platéia quase sempre restrita ou mesmo ausente e, assim, depende de registros, por meio de fotografias, vídeos e/ou memoriais descritivos para se tornar conhecida do público. A perfomance que causa maior impacto, de todas as apresentações é “Want To Break Free” – Eu quero me libertar, onde cinco jovens atrizes encarnam cinco mulheres “realizadas e felizes” que desenvolvem corretamente suas funções como dona de casa e aguardam por seus maridos. Ana Márcia Andrade, Anamaria Otto, Jaqueline Vieira, Jéssica Vasconcellos e Marítissa Benot artísticamente incomodam... Incomodam muito. A característica principal da arte da perfomance e do happening é incomodar, é mostrar o lado desumano do pseudo humano. Encenam a farsa da vida perfeita, mostram a dor que existe nas opressões psicológicas do universo feminino que acostumado a servir, a doar, a desmedida e perpetuadamente realizar múltiplas tarefas com esmero e perfeição, não se dão conta que a síndrome da super-mulher é perigosa e inútil: A sobrecarga de trabalho causa doenças psicológicas irreversíveis e não resolvem nenhuma espécie de questão, apenas agravam situações, empurram a sujeira para debaixo do tapete... I Want To Break Free é o que todas nós precisamos fazer, para viver uma vida mais leve, deixar de nos importar com condicionamentos perpetuados a séculos, porque não precisamos mais viver amarradas e oprimidas e estar com alguém precisa ser prazeroso. Não há necessidade da histeria psicótica de cobranças, obrigações e desgastes, mas a leveza de sorrisos, cheiros, toques, a sinestesia de olhares e comportamentos.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Anais Nin; Uma Mulher.


Anaïs Nin (21 de fevereiro de 1903, Neuilly, perto de Paris - 14 de janeiro de 1977, Los Angeles). Batizada Angela Anais Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell, autora nascida na França, filha do compositor Joaquin Nin, cubano criado na Espanha e Rosa Culmell y Vigaraud,de origens cubana, francesa e dinamarquesa. Anaïs Nin tornou-se famosa pela publicação de diários pessoais, que medem um período de quarenta anos, começando quando tinha doze anos. Foi amante de Henry Miller e só permitiu que seus diários fossem publicados após a morte de seu marido Hugh Guiler.

Seus romances e narrativas, impregnados de conteúdo erótico foram profundamente influenciados pela obra de James Joyce e a psicanálise. Dentre suas obras destaca-se Delta de Vênus (1977), traduzido para todas as línguas ocidentais, aclamado pela crítica americana e européia.

No cinema o filme, Henry & June, dirigido por Philip Kaufman, cita a relação entre Anaïs Nin e Henry Miller. Anaïs Nin foi interpretada pela atriz portuguesa Maria de Medeiros.

Lilith, por Anais Nin

Lilith

Lilith era sexualmente fria, e seu marido em parte o sabia, apesar das simulações dela… Eles estavam sentados ali, juntos, e ela a olhava com uma expressão de suave tolerância, a mesma que costumava manter diante das crises dela, crises de egotismo, de autocensura, de pânico. A todos os seus dramáticos comportamentos, ele respondia com inabalável bom humor e paciência.Ela sempre enfurecia-se sozinha, irritava-se sozinha, suportava sozinha suas intensas convulsões emocionais, das quais ele nunca participava. Possivelmente, tratava-se de um símbolo de tensão que não ocorria entre eles sexualmente. Ele recusava todos os seus primitivos e violentos desafios e hostilidades, recusava-se a entrar com ela nessa arena emocional e a reagir à sua necessidade de ciúmes, temores, conflitos.Talvez se ele tivesse aceitado seus desafios e jogado os jogos que ela gostava de jogar, talvez então ela poderia ter sentido sua presença com um impacto bem maior do que o meramente físico. Mas o marido de Lilith não conhecia os prelúdios do desejo sensual, não conhecia nenhum dos estimulantes que certas naturezas selvagens reclamam e, desse modo, em vez de responder-lhe tão logo visse seus cabelos se eriçarem, seu rosto mais vívido, seus olhos como duas tochas de fogo, seu corpo inquieto e impaciente como o de um cavalo que aguardasse o início da corrida, ele se refugiava atrás do muro da compreensão objetiva, dessa tranqüila e irritante atitude de aprovação com a qual as pessoas olham para um animal no zoológico e riem de suas momices, sem penetrar em seu estado interior.

Era isso que deixava Lilith num estado de isolamento – na verdade, como um animal selvagem em pleno deserto. Quando ela se enfurecia e sua temperatura subia, o marido simplesmente deixava de existir. Ele mais parecia uma branda divindade que a olhasse dos céus e aguardasse que sua fúria se exaurisse por si mesma.

Se ele, feito um animal igualmente primitivo, surgisse na outra extremidade desse deserto, encarando-a com a mesma tensão energética nos cabelos, na pele e nos olhos, se surgisse com o mesmo corpo selvagem, pisando fortemente e procurando um único pretexto para dar o bote, enlaçar-se furiosamente, sentir o calor e a força de seu oponente, então eles poderiam rolar juntos pelo chão e as mordidas poderiam tornar-se de outra espécie, e a luta se transformaria num abraço, e os puxões de cabelo fariam com que suas bocas, seus dentes e suas línguas se unissem.

E, devido à fúria, seus órgãos genitais se roçariam mutuamente, soltando faíscas, e os dois corpos sentiriam a necessidade de penetrar um no outro para pôr um fim nessa formidável tensão.

– Anais Nin

sexta-feira, 26 de junho de 2009

... Carne, Suspiros e leite... Sem lactose.


... Derreta manteiga em uma panela, de preferência, daquelas que já tem uma pequena crosta do cozer, coloque as coxas, os peitos, os pescoços,todas as partes da carne já previamente temperadas com sal,pimenta,açúcar mascavo, mel e especiarias, mexendo sem parar e refogando até dourarem bem. Assim que pegarem cor, alterne o fogo, ora quente, ora morno, tampe a panela e deixe cozinhar (se necessário acrescente 1 ou 2 colheres de leite, mas normalmente não é preciso), ele surgirá. Descasque e corte as maçãs, os figos, as uvas, os morangos, fatiando-os e refogando-os na manteiga restante até ficarem avidamente dourados. Ao fim do cozimento, regue-o com o calvados, deixe aquecer um pouco, incline a panela em direção à chama e faça flambar. Quando o fogo se apagar, adicione o creme de leite e o cominho. Misture bem, ora delicadamente, ora avidamente e corrija o tempero, deixando no fogo para reduzir um pouco o molho. Para servir, coloque as carnes em uma bandeja, junte os gostos das frutas flambadas em volta e regue com o molho de leite... Sem lactose, por favor!... Sou alergica... Pode provar... Suspiros estarão garantidos.

domingo, 21 de junho de 2009

... Cheirando a Alma...

... Existem algumas mulheres que são “Senhoras da Vida e da Morte”... Uma casta de mulheres incomuns, dessas que são fênix... Senhoras Cortesãs inteligentes... Não princesinhas limitadas... Soberanas da própria vida... Por isso, Senhoras do Universo, com passos andarilhos na vida tão difíceis como acordar, abrir os olhos, sentir o cheiro de um mundo seu e a ação obrigatória e descompassada em sair e sentir o mundo dos outros... Arrumar-se e sair do casulo todos os dias. Um passo que é sempre tudo ou nada e somente quem tem coragem faz o que deve ser feito... Senhoras que tem coragem para apostar todas as fichas, pagar para ver, mesmo que as pernas estejam bambas, mesmo que o sangue desça, mesmo que o susto seja grande, mesmo que o frio venha, mesmo que o diagnóstico seja estranho, mesmo que o homem amado esteja insensível... Esteja, não seja... E na verdade ele não é insensível, apenas cumpre um papel que encena porque todos esperam que seja sempre assim, insensível, distante, desconfiado... E do outro lado as Senhoras da vida e da morte continuam Pagando para ver. Isso é coragem. Em toda a história do mundo, pessoas não estão preparadas para sinestesicamente, cheirar a alma dessas mulheres... Elas causam medo. Por mais inteligentes e descoladas que sejam as pessoas, raramente estão preparadas para elas. As Mulheres sentem inveja, não por serem tão menos ou mais, sentem, por tão somente não se perceberem como tão iguais... Os homens, até os chamados metropolitanos, viventes das grandes metrópoles não conseguem olfaticamente degustá-las; pensam erroneamente que são um ar asfixiante, uma corrente disfarçada em coloridas plumas, um sorriso cariado pintado de resina e um olho caolho que não está piscando, mas que está pirateando suas vidas. O que será necessário fazer para não esconder por tanto tempo a audácia, a inteligência, a criatividade? Para não se nivelar por baixo, com medo de não se encaixar naquilo que não deve ser vendido e naquilo que não deve ser comprado – comportamentos perpetuados à séculos que não mais se enquadram ao mundo contemporâneo... Ao mundo contemporâneo das relações supra-sociais... O que se deve fazer para que a alma feminina não seja obrigada a entrar em outro clichê de início de século – o solitário e enfadonho feminismo? O que será necessário fazer para que o cheiro da alma tenha o gosto saudável do prazer, da saúde e da paz? O que se deve fazer para que os desiguais sejam aceitos e amados como desiguais? O que se deve fazer para que o medo não afaste mais as pessoas?...“A dor da alma se reflete no corpo e na solidão” ...

SAUDADE (Pablo Neruda)


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas a amada já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda